Ação & Contexto

sobre fotografia, fotojornalismo e novas mídias

Posts Tagged ‘maiara gonçalves

Até breve

with 6 comments

Reluto em me despedir. Já passa das dez, horário tão comum para mim nos últimos dez meses nessa redação. Mas é o último dia. São os últimos minutos de um até breve. Um até breve aos primeiros colegas de profissão que foram fantásticos nesses primeiros meses de mercado de trabalho. Não poderia ter começado em lugar melhor, disso tenho certeza, e sou eternamente grato por cada detalhe que cada um compartilhou e me ensinou durante nossa convivência diária.

Essa história não poderia ter terminado de forma mais fantástica.

Fernando Meligeni e Gustavo Kuerten, ícones do tênis brasileiro (Rubens Flôres)

Ganhar o 8º Prêmio IGK, do Instituto Guga Kuerten, é o primeiro de muitos sonhos que espero realizar. Parece que foi ontem meu terceiro dia de trabalho no Notícias do Dia, quando fiz a foto premiada durante pauta com a Maiara. Faltando três dias para me despedir, ganho esse troféu. Não poderia ter sido mais perfeito.

"Força supera limitações", vencedora da categoria Fotojornalismo no 8º Prêmio IGK

Quero ir longe, muito longe. Mas, apesar de partir, minha gratidão e carinho por todos permanece.

Até breve!

Crônica de uma tragédia anunciada

leave a comment »

Construir casas e estabelecimentos comerciais em cima de áreas de proteção permanente (APPs). Avançar construções sobre dunas e áreas de restinga próximas à areia da praia. Criar molhes e fazer enroncamentos sem estudo de impacto ambiental. Com um enredo recheado de atropelos à legislação ambiental e desrespeito à natureza somados à falta de fiscalização e ação dos órgãos públicos responsáveis, os últimos 30 anos de Florianópolis foram escritos para que a história terminasse em tragédia.

Não é de hoje que a natureza tem respondido à ação do homem. No caso das praias de Florianópolis, o processo foi intensificado nos últimos meses pelas consecutivas e cada vez maiores ressacas que atingiram o litoral catarinense em abril e maio. Desde março o jornal Notícias do Dia tem dado diariamente atenção especial ao assunto, e no conjunto de fotos e matérias que foram publicadas é possível ver que as imagens chocantes das últimas semanas poderiam ter sido evitadas – com menos dinheiro do que está sendo gasto atualmente de forma emergencial.

Notícias do Dia de 5 de março alertava: "Comunidade pede apoio" (Washington Fidélis, 04/03/10)

O presidente da Associação dos Pescadores Artesanais da Armação, Fernando Sabino, apresentou as dificuldades com a erosão da praia e o açoreamento do rio Quincas, que causa enchente e afeta a comunidade. “Ficou mais raso onde fica o ancoradouro. O local tinha seis metros de profundidade e agora tem dois (…)” escreveu a jornalista Roberta Kremer na página oito. Na mesma matéria foi citado o projeto do Deinfra (Departamento Estadual de Infraestrutura) de 1999 que apontava como uma das soluções o engordamento da praia com a areia retirada do desaçoreamento do canal, iniciativa orçada em R$ 2 milhões. Hoje, cinco vezes o valor está sendo utilizado nas obras emergenciais.

Faixa de areia em frente à casa do juiz aposentado Valdomiro Simões na década de 80 (arquivo pessoal, 1987)

Interditada pela Defesa Civil e com a escada de acesso à areia demolida pela ressaca (Rosane Lima, 18/05/10)

Fúria da ressaca faz a faixa de areia desaparecer com a subida da maré (Lucas Sampaio, 02/06/10)

Da frente da casa do juiz aposentado Valdomiro Simões o fotógrafo Edu Cavalcanti fez a capa da edição de final de semana do jornal Notícias do Dia (17 e 18 de abril), que trazia um especial de duas páginas sobre a praia da Armação do Pântano do Sul. Depois de perder quatro metros de faixa de areia por ano desde 2001, a praia praticamente desapareceu com a ressaca daquela semana.

Na matéria da jornalista Aline Rebequi, o doutor em engenharia oceânica e professor da Univali (Universidade do Vale do Itajaí) João Luiz de Carvalho avaliava a gravidade dos estragos através de uma imagem via satélite: “Nota-se uma erosão profunda no mar e um molhe que não poderia ter sido construído. Possivelmente não houve uma pesquisa na área para tanto, nem para ele, nem para a construção das moradias presentes na orla. (…) As casas estão em cima das dunas, e o local onde as ondas deveriam circular foi barrado pelas pedras do molhe.”

Molhe construído entre a praia da Armação (à direita) e a foz do rio Quincas (Edu Cavalcanti, 13/04/10)

Vista lateral do "molhe que não poderia ter sido construído" (Rosane Lima, 19/05/10)

No dia 18 de maio, exato um mês após o especial do jornal, a moradora Olga Gomes da Rosa, 46 anos, lamentava: “o mar avança minuto a minuto e acredito que, quando a prefeitura tomar uma providência, será tarde demais”. Mesmo investindo R$ 16 mil em 52 caminhões de pedra para evitar o desabamento, sete dias depois Olga foi obrigada a abandonar sua casa. No verão ela alugava quartos por R$ 500 a diária, renda com a qual sustentava a família. Segundo seu irmão Gesiel Gomes, que no dia seguinte retirava o que ainda era possível aproveitar, o prejuízo da proprietária foi de R$ 700 mil.

Enquanto Gesiel trabalhava, o prefeito de Florianópolis Dário Berger visitava o que havia sobrado do imóvel no final da servidão João Jorge. A casa de Olga foi capa do Notícias do Dia de 27 de maio e estampou as duas páginas sobre o desastre. Foram necessárias a destruição de 12 casas e a interdição de outras 30 para que fosse decretado estado de emergência na praia da Armação.

Antes da homologação do decreto emergencial, até o exército foi convocado para combater a ressaca. No dia 21, soldados espalharam cerca de 5 mil sacos de areia numa faixa de aproximadamente 150 metros da praia. A previsão feita pelo capitão Marcus Rachid, engenheiro do Exército, para a repórter do Notícias do Dia Maiara Gonçalves mostrou-se correta: “o muro de contenção é emergencial e capaz de conter as ondas pelo menos até a próxima semana”.

5 mil sacos de areia colocados pelo Exército duraram menos de uma semana (Cristiano Andujar, 21/05/10)

Três dias depois, cerca de 150 moradores da Armação do Pântano do Sul protestaram em frente à Assembleia Legislativa do estado (Alesc) exigindo providências das autoridades para deter o avanço do mar sobre as casas do balneário.

"Nossa situação é crítica. É para hoje, não para daqui a 21 dias" (Rosane Lima, 24/05/10)

Com as seguidas ressacas e a inoperância do poder público, o pânico tomou conta dos moradores do bairro. Mesmo impedidos pela Polícia Ambiental, muitos insistiam na colocação de pedras ao longa da orla, numa tentativa de barrar a destruição dos imóveis à beira da praia.

A jornalista do Notícias do Dia Mônica Foltran consultou uma especialista que contestava a ação ilegal dos moradores. Para a professora da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) Janete Abreu, geógrafa especialista em geomorfologia costeira, o enroncamento (proteção da orla com uma barreira de pedras) feito na praia na tentativa de diminuir a erosão “tem mais efeitos impactantes negativos do que positivos. As ondas quebram nas pedras e acabam refletindo a energia e voltando com mais força para o mar”.

De acordo com a geógrafa, o mais sensato no momento seria interditar as casas em risco, afastar moradores do local e aguardar que a ressaca diminua. (…) “A orla e a restinga são áreas naturalmente instáveis. Com as ondas do mar agindo, a ocupação nestas áreas sempre será um risco.

Pilar exposto sustenta parte da estrutura de uma casa na Armação (Rosane Lima, 19/05/10)

No mesmo dia, parte sustentada pelo pilar exposto é demolida (Rosane Lima, 19/05/10)

O pilar exposta havia cedido, mas às 11h26min não era possível ver a casa branca (Edu Cavalcanti, 27/05/10)

Seis horas depois, às 17h28min, casa salmão cedeu à ressaca (Lucas Sampaio, 27/05/10)

As mesmas casas destruídas, fotografadas do mesmo ângulo, seis dias depois (Lucas Sampaio, 02/06/10)

Com os R$ 10 milhões, o secretário de Obras, José Nilton Alexandre, disse que será erguido de forma improvisada e emergencial, um muro de contenção com 12 metros de base, seis metros de altura e 1.740 metros de comprimento. “Iremos utilizar 84 mil metros cúbicos de rochas”.

Se 1/5 desse valor fosse investido há 11 anos no projeto do Deinfra, a Armação do Pântano do Sul ainda hoje seria uma praia com faixa de areia e balneabilidade. Com o enrocamento de quase dois quilômetros que está sendo construído, em breve o sul da ilha ganhará sua avenida Beira-mar.