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Crônica de uma tragédia anunciada

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Construir casas e estabelecimentos comerciais em cima de áreas de proteção permanente (APPs). Avançar construções sobre dunas e áreas de restinga próximas à areia da praia. Criar molhes e fazer enroncamentos sem estudo de impacto ambiental. Com um enredo recheado de atropelos à legislação ambiental e desrespeito à natureza somados à falta de fiscalização e ação dos órgãos públicos responsáveis, os últimos 30 anos de Florianópolis foram escritos para que a história terminasse em tragédia.

Não é de hoje que a natureza tem respondido à ação do homem. No caso das praias de Florianópolis, o processo foi intensificado nos últimos meses pelas consecutivas e cada vez maiores ressacas que atingiram o litoral catarinense em abril e maio. Desde março o jornal Notícias do Dia tem dado diariamente atenção especial ao assunto, e no conjunto de fotos e matérias que foram publicadas é possível ver que as imagens chocantes das últimas semanas poderiam ter sido evitadas – com menos dinheiro do que está sendo gasto atualmente de forma emergencial.

Notícias do Dia de 5 de março alertava: "Comunidade pede apoio" (Washington Fidélis, 04/03/10)

O presidente da Associação dos Pescadores Artesanais da Armação, Fernando Sabino, apresentou as dificuldades com a erosão da praia e o açoreamento do rio Quincas, que causa enchente e afeta a comunidade. “Ficou mais raso onde fica o ancoradouro. O local tinha seis metros de profundidade e agora tem dois (…)” escreveu a jornalista Roberta Kremer na página oito. Na mesma matéria foi citado o projeto do Deinfra (Departamento Estadual de Infraestrutura) de 1999 que apontava como uma das soluções o engordamento da praia com a areia retirada do desaçoreamento do canal, iniciativa orçada em R$ 2 milhões. Hoje, cinco vezes o valor está sendo utilizado nas obras emergenciais.

Faixa de areia em frente à casa do juiz aposentado Valdomiro Simões na década de 80 (arquivo pessoal, 1987)

Interditada pela Defesa Civil e com a escada de acesso à areia demolida pela ressaca (Rosane Lima, 18/05/10)

Fúria da ressaca faz a faixa de areia desaparecer com a subida da maré (Lucas Sampaio, 02/06/10)

Da frente da casa do juiz aposentado Valdomiro Simões o fotógrafo Edu Cavalcanti fez a capa da edição de final de semana do jornal Notícias do Dia (17 e 18 de abril), que trazia um especial de duas páginas sobre a praia da Armação do Pântano do Sul. Depois de perder quatro metros de faixa de areia por ano desde 2001, a praia praticamente desapareceu com a ressaca daquela semana.

Na matéria da jornalista Aline Rebequi, o doutor em engenharia oceânica e professor da Univali (Universidade do Vale do Itajaí) João Luiz de Carvalho avaliava a gravidade dos estragos através de uma imagem via satélite: “Nota-se uma erosão profunda no mar e um molhe que não poderia ter sido construído. Possivelmente não houve uma pesquisa na área para tanto, nem para ele, nem para a construção das moradias presentes na orla. (…) As casas estão em cima das dunas, e o local onde as ondas deveriam circular foi barrado pelas pedras do molhe.”

Molhe construído entre a praia da Armação (à direita) e a foz do rio Quincas (Edu Cavalcanti, 13/04/10)

Vista lateral do "molhe que não poderia ter sido construído" (Rosane Lima, 19/05/10)

No dia 18 de maio, exato um mês após o especial do jornal, a moradora Olga Gomes da Rosa, 46 anos, lamentava: “o mar avança minuto a minuto e acredito que, quando a prefeitura tomar uma providência, será tarde demais”. Mesmo investindo R$ 16 mil em 52 caminhões de pedra para evitar o desabamento, sete dias depois Olga foi obrigada a abandonar sua casa. No verão ela alugava quartos por R$ 500 a diária, renda com a qual sustentava a família. Segundo seu irmão Gesiel Gomes, que no dia seguinte retirava o que ainda era possível aproveitar, o prejuízo da proprietária foi de R$ 700 mil.

Enquanto Gesiel trabalhava, o prefeito de Florianópolis Dário Berger visitava o que havia sobrado do imóvel no final da servidão João Jorge. A casa de Olga foi capa do Notícias do Dia de 27 de maio e estampou as duas páginas sobre o desastre. Foram necessárias a destruição de 12 casas e a interdição de outras 30 para que fosse decretado estado de emergência na praia da Armação.

Antes da homologação do decreto emergencial, até o exército foi convocado para combater a ressaca. No dia 21, soldados espalharam cerca de 5 mil sacos de areia numa faixa de aproximadamente 150 metros da praia. A previsão feita pelo capitão Marcus Rachid, engenheiro do Exército, para a repórter do Notícias do Dia Maiara Gonçalves mostrou-se correta: “o muro de contenção é emergencial e capaz de conter as ondas pelo menos até a próxima semana”.

5 mil sacos de areia colocados pelo Exército duraram menos de uma semana (Cristiano Andujar, 21/05/10)

Três dias depois, cerca de 150 moradores da Armação do Pântano do Sul protestaram em frente à Assembleia Legislativa do estado (Alesc) exigindo providências das autoridades para deter o avanço do mar sobre as casas do balneário.

"Nossa situação é crítica. É para hoje, não para daqui a 21 dias" (Rosane Lima, 24/05/10)

Com as seguidas ressacas e a inoperância do poder público, o pânico tomou conta dos moradores do bairro. Mesmo impedidos pela Polícia Ambiental, muitos insistiam na colocação de pedras ao longa da orla, numa tentativa de barrar a destruição dos imóveis à beira da praia.

A jornalista do Notícias do Dia Mônica Foltran consultou uma especialista que contestava a ação ilegal dos moradores. Para a professora da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) Janete Abreu, geógrafa especialista em geomorfologia costeira, o enroncamento (proteção da orla com uma barreira de pedras) feito na praia na tentativa de diminuir a erosão “tem mais efeitos impactantes negativos do que positivos. As ondas quebram nas pedras e acabam refletindo a energia e voltando com mais força para o mar”.

De acordo com a geógrafa, o mais sensato no momento seria interditar as casas em risco, afastar moradores do local e aguardar que a ressaca diminua. (…) “A orla e a restinga são áreas naturalmente instáveis. Com as ondas do mar agindo, a ocupação nestas áreas sempre será um risco.

Pilar exposto sustenta parte da estrutura de uma casa na Armação (Rosane Lima, 19/05/10)

No mesmo dia, parte sustentada pelo pilar exposto é demolida (Rosane Lima, 19/05/10)

O pilar exposta havia cedido, mas às 11h26min não era possível ver a casa branca (Edu Cavalcanti, 27/05/10)

Seis horas depois, às 17h28min, casa salmão cedeu à ressaca (Lucas Sampaio, 27/05/10)

As mesmas casas destruídas, fotografadas do mesmo ângulo, seis dias depois (Lucas Sampaio, 02/06/10)

Com os R$ 10 milhões, o secretário de Obras, José Nilton Alexandre, disse que será erguido de forma improvisada e emergencial, um muro de contenção com 12 metros de base, seis metros de altura e 1.740 metros de comprimento. “Iremos utilizar 84 mil metros cúbicos de rochas”.

Se 1/5 desse valor fosse investido há 11 anos no projeto do Deinfra, a Armação do Pântano do Sul ainda hoje seria uma praia com faixa de areia e balneabilidade. Com o enrocamento de quase dois quilômetros que está sendo construído, em breve o sul da ilha ganhará sua avenida Beira-mar.

Barra da Lagoa sofre com a ressaca que atinge litoral catarinense

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Capa da edição de hoje do jornal Notícias do Dia, de Florianópolis, a ressaca atingiu com força a praia da Barra da Lagoa, leste da ilha. A subida da maré não intimidou as famílias, vizinhos e voluntários que tentaram conter a destruição causada pela força das ondas, apesar da faixa de mais de 10 metros de areia ter desaparecido. O mar derrubou muros residenciais, escadas de acesso e estabelecimentos comerciais, causando medo e perplexidade.

Na praia da Armação do Pântano do Sul o mar resolveu dar uma trégua e recuou alguns metros. O tempo fechado e a divulgação de imagens pela mídia levou milhares de curiosos à praia do sul da ilha até o fim do dia, transformando a orla destruída em atração turística da capital.

Ressaca atinge com força também a praia da Barra da Lagoa, leste da ilha (Lucas Sampaio)

Família, vizinhos e voluntários tentam conter a destruição causada pelo avanço do mar (Lucas Sampaio)

Seu Osmarino observa a tentativa de salvar o que ainda resta do restaurante da família (Lucas Sampaio)

A praia da Armação teve sua paisagem transformada drasticamente após as últimas ressacas (Lucas Sampaio)

Na Armação do Pântano do Sul o programa de domingo foi visitar o desastre ambiental (Lucas Sampaio)

Curiosos visitaram a praia até o cair da noite, causando lentidão na SC-405 (Lucas Sampaio)

Ressaca destrói Armação do Pântano do Sul

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Não existe mais praia. Uma das mais belas praias do sul de Florianópolis, a Armação do Pântano do Sul, desapareceu.  A faixa de areia (que já teve mais de 30 metros de extensão) e parte da restinga foram levadas pela maré. Sem proteção natural, as casas começam a ruir. Moradores sentem saudades do tempo em que os gados pastavam no local onde hoje centenas de caminhões despejam, em vão, pedras para tentar conter o avanço furioso do mar.

Já são 14 o número de casas levadas pelas ressacas que atingem o litoral da ilha, cinco nos últimos dois dias. Em 9 de abril, após a primeira das três ressacas do últimos dois meses, moradores criaram o S.O.S. Armação para pedir socorro. Mas só agora começou a chegar a ajuda através de acordo entre prefeitura municipal, Ibama, Ministério Público Federal e Fatma.

Os que ainda não perderam seus imóveis deixam para trás o patrimônio que tempos atrás proporcionava uma bela vista à beira-mar. As próximas duas imagens retratam a situação no local. A casa que estampou a capa do Diário Catarinense de hoje, registrada pelo jornalista Guto Kuerten, virou entulho no meio da tarde.

Foto tirada às 17h28min mostra, no primeiro plano, os escombros da casa (Lucas Sampaio)

Às 11h26min a casa ainda não havia sido derrubada pela ressaca (Edu Cavalcanti)

Por outro ângulo, as duas casas destruídas pela força do mar (Edu Cavalcanti)

O jornal Notícias do Dia esteve presente duas vezes hoje na praia da Armação. Confira os registros feitos pelos repórteres fotográficos Edu Cavancanti (de manhã) e Lucas Sampaio (final de tarde).

Onde antes moradores e turistas aproveitavam o verão não existe mais faixa de areia (Edu Cavalcanti)

A paisagem se assemelha a de um local em guerra civil (Edu Cavalcanti)

Tratores e caminhões contratados pela prefeitura pela primeira vez trabalham no local (Edu Cavalcanti)

Até ontem, moradores tiravam do próprio bolso dinheiro para tentar conter o avanço do mar (Edu Cavalcanti)

Em foto tirada na tarde de ontem mal era possível ver areia onde antes havia praia (Lucas Sampaio)

Última família a permanecer no condomínio Armasol abandona o local na tarde de ontem (Lucas Sampaio)

Geovânio Goulart retira madeira da casa de sua tia, Olga Gomes da Rosa, que abandonou o local (Lucas Sampaio)

Ao fundo, molhe que para os moradores acelerou o processo de desaparecimento da praia (Lucas Sampaio)

As toneladas de pedras não forão suficientes para conter a destruição causada pelas ressacas (Lucas Sampaio)

A mudança para lua cheia traz consigo a maré cheia e aumenta o temor dos moradores (Lucas Sampaio)